O Que é um Ataque de Ansiedade? Duração, Causas e Diferenças

O que é um ataque de ansiedade?

TL;DR

Um ataque de ansiedade é um episódio súbito de medo ou desconforto intenso que atinge o pico em minutos e depois diminui. A expressão é corrente, não clínica: o termo definido nos manuais de diagnóstico é ataque de pânico. Cinco pontos a reter:

  • Tem estrutura reconhecível. Sobe depressa, atinge um pico em minutos, desce, e deixa um rescaldo de cansaço que pode durar horas.
  • Ter um ataque não significa ter uma perturbação. O ataque de pânico não é um diagnóstico em si e pode ocorrer sem qualquer perturbação associada.
  • A distinção clínica relevante não é entre ansiedade e pânico, mas entre ataques esperados (com gatilho identificável) e inesperados (sem causa aparente).
  • Os ataques repetem-se por uma razão compreensível, e não por acaso: o medo de ter outro ataque altera a forma como a pessoa presta atenção ao próprio corpo e ao que evita.
  • Torna-se perturbação de pânico quando os ataques inesperados são recorrentes e há pelo menos um mês de preocupação persistente ou de mudança de comportamento por causa deles.

Introdução

Os ataques de pânico são mais comuns do que a maioria das pessoas imagina. Segundo os Manuais MSD, versão para profissionais de saúde, as estimativas de prevalência ao longo da vida situam-se entre 8 e 23%. A perturbação de pânico, essa sim, afecta 2 a 3% da população num período de doze meses. A diferença entre estes dois números é a diferença entre ter um episódio e ter um problema instalado, e é uma das coisas que este artigo procura clarificar.

A pergunta sobre o que é um ataque de ansiedade costuma surgir depois de já se ter passado por um. E traz outras três por baixo dela: estarei a ter um problema de saúde grave?, estarei a perder o controlo? e isto vai voltar a acontecer?

A informação disponível não ajuda muito, por uma razão concreta: as páginas que respondem a esta pesquisa quase nunca definem o que é um ataque de ansiedade. Definem ansiedade, definem perturbação de ansiedade, ou definem ataque de pânico, e deixam a ponte por fazer. É por isso que se sai da pesquisa tão confuso como se entrou.

Aqui vai encontrar o que é um episódio destes, quanto tempo dura, o que acontece ao corpo depois, o que o provoca, em que difere de um ataque de pânico e, sobretudo, porque tende a repetir-se. Escrevo-o na qualidade de psicóloga clínica, e é essa a camada que geralmente falta: não o que o corpo faz, mas o que a pessoa passa a fazer consigo própria entre um episódio e o seguinte.

O que é um ataque de ansiedade

Um ataque de ansiedade é um episódio de medo ou desconforto intenso que surge de forma abrupta, atinge o ponto máximo em poucos minutos e depois diminui. Durante esse período o corpo comporta-se como se houvesse um perigo imediato, mesmo quando não existe ameaça real.

Há uma coisa que convém dizer logo, porque explica grande parte da confusão: “ataque de ansiedade” é uma expressão corrente, não um termo clínico. O DSM-5-TR, o manual de diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, não inclui “ataque de ansiedade” como categoria. Define ataque de pânico, e define as várias perturbações de ansiedade. Não define nada a meio caminho.

Isto tem uma consequência prática. Quando procura descrições de “ataque de ansiedade”, encontra páginas que na verdade estão a descrever outra coisa: umas descrevem ansiedade generalizada, outras descrevem ataques de pânico, outras descrevem perturbação de ansiedade com critérios de seis meses que nada têm a ver com um episódio agudo. Não é o leitor que está confuso. É a terminologia que é inconsistente.

Na prática clínica, quando alguém me diz que teve um ataque de ansiedade, está habitualmente a descrever uma de duas experiências: um ataque de pânico, que corresponde à definição clínica, ou uma escalada de ansiedade mais gradual, associada a uma preocupação identificável, que se tornou intensa ao ponto de parecer um acontecimento próprio. As duas são reais. As duas merecem atenção. Só uma tem nome nos manuais.

O que se sente durante um ataque de ansiedade

O que se sente é uma mistura de reacção corporal intensa e de um conjunto muito específico de medos. Os medos são a parte menos descrita e, para quem passa pela experiência, quase sempre a mais assustadora.

Do lado psicológico, o que aparece com mais frequência é a sensação de que algo muito grave está prestes a acontecer, sem se conseguir dizer o quê. Junta-se a isso o medo de perder o controlo, o medo de morrer, e uma dificuldade real em pensar com clareza. Muitas pessoas descrevem ainda uma sensação de irrealidade: sentir que o que está à volta não é bem real, ou sentir-se de alguma forma afastado de si próprio. Isto tem nome clínico, desrealização e despersonalização, e é um dos aspectos mais perturbadores do episódio, precisamente porque alimenta a interpretação de que se está a enlouquecer.

Do lado corporal, a resposta é intensa e envolve o coração, a respiração, os músculos e o sistema digestivo. Se quer perceber em detalhe o que se passa no corpo e porquê, trato esse tema em profundidade no artigo sobre os sintomas físicos da ansiedade.

Vale a pena reter uma coisa sobre estes sintomas corporais: são exactamente os mesmos que o corpo produziria perante um perigo real. Não são um sinal de avaria. São um sistema de alarme a disparar no momento errado.

Como saber se está a ter um ataque de ansiedade

Há três características que, em conjunto, distinguem um ataque de um período de ansiedade elevada.

A primeira é a subida abrupta. Não é um desconforto que cresce ao longo do dia, é uma escalada que se instala em segundos ou poucos minutos.

A segunda é a desproporção. A intensidade da reacção não corresponde ao que está a acontecer à volta. Pode estar sentado no sofá, parado num semáforo, ou simplesmente a acordar.

A terceira é a curva. Um ataque não fica estável. Sobe, atinge um pico e desce. Se o que sente se mantém igual durante horas, provavelmente não está perante um ataque, mas perante um estado de ansiedade elevada, que é outra coisa e pede outra abordagem.

Quanto tempo dura um ataque de ansiedade

Um ataque atinge o pico em minutos e a maioria resolve-se pouco depois disso. Quanto à duração total, convém saber que as fontes divergem, e não vale a pena fingir o contrário.

Aqui há um número que circula muito e que convém corrigir. Muitas páginas portuguesas afirmam que os sintomas atingem o pico “em dez minutos”. Esse era o critério do DSM-IV. O DSM-5 e o DSM-5-TR alteraram a formulação para “em minutos”, sem número fixo, precisamente porque a experiência real varia bastante de pessoa para pessoa. Se encontrar o valor de dez minutos numa página, está a ler um critério que já foi revisto.

Não existe critério diagnóstico para a duração total. O que existe é observação clínica, e ela não é unânime. O National Institute of Mental Health descreve episódios que podem ir de alguns minutos a cerca de uma hora, por vezes mais. A literatura clínica mais citada aponta habitualmente para intervalos mais curtos, entre cinco e trinta minutos.

A diferença entre estes números explica-se provavelmente pelo que se está a contar. A fase aguda, aquela em que o medo é intenso, tende a ser curta. O que se prolonga é a fase de descida e o cansaço que vem a seguir, e essa parte é difícil de separar do episódio quando se está a vivê-la.

Como começa e quando atinge o pico

O início é abrupto e pode partir de um estado calmo ou de um estado já ansioso. Este pormenor está expressamente previsto nos critérios actuais e é importante: não é preciso estar ansioso antes para se ter um ataque.

A parte que mais tranquiliza as pessoas é perceber porque é que o pico não se mantém. O NIMH descreve os sintomas físicos de um ataque de pânico como algo que se resolve com o tempo, e é isso que se observa na prática: a resposta de alarme em curso é uma resposta de emergência, exigente para o organismo, e não se sustenta indefinidamente.

Por outras palavras: o ataque acaba mesmo que não faça nada. Não é preciso “ganhar” ao ataque para ele terminar.

Isto muda muito a experiência do episódio seguinte. Quem entra num ataque a acreditar que a intensidade vai continuar a subir indefinidamente reage com mais alarme, e o alarme alimenta o episódio. Quem sabe que existe um tecto reage com menos.

Como fica o corpo depois: o rescaldo

Depois do pico ficam quase sempre exaustão e embotamento, e esta é a parte de que quase ninguém fala.

O que descrevo com mais frequência em consulta é isto: a pessoa passa o resto do dia como se tivesse corrido uma maratona, com a cabeça pesada, sem conseguir concentrar-se, e frequentemente com vergonha do que aconteceu, sobretudo se aconteceu em público ou à frente de alguém. Há também um medo residual, uma espécie de vigilância de fundo à espera de que aconteça outra vez.

Nada disto é sinal de que algo continua mal. É o custo previsível de uma resposta de emergência que foi accionada a fundo. O corpo esgotou recursos e está a recuperá-los.

Digo isto por uma razão prática: é muito comum interpretar o rescaldo como prova de que o episódio foi mais grave do que foi, ou de que alguma coisa ficou danificada. Não ficou. E saber isso evita que o dia seguinte seja passado a monitorizar o corpo à procura de sinais.

Quando o episódio passa mas o receio fica

Um ataque isolado resolve-se sozinho. O que costuma precisar de trabalho é o que se instala depois: a atenção permanente ao corpo e o receio de que volte a acontecer.

Como funciona a psicoterapia

O que causa um ataque de ansiedade

Um ataque de ansiedade acontece quando o sistema de alarme do corpo interpreta como perigo uma situação que não o é. Essa interpretação errada depende menos da situação em si e mais do estado em que a pessoa chega a ela.

A resposta habitual a esta pergunta é uma lista de factores de predisposição: genética, temperamento, stress acumulado, funcionamento cerebral. Tudo verdadeiro, e tudo pouco utilizável por quem quer perceber o que aconteceu numa terça-feira à tarde. É mais útil separar duas coisas que costumam ser tratadas como uma só.

O gatilho é o que estava a acontecer no momento: uma reunião, uma discussão, um espaço fechado, uma notícia, ou, muitas vezes, nada de identificável.

A causa é a razão pela qual o sistema de alarme interpretou aquela situação como perigo. E essa razão raramente está na situação. Está no estado em que a pessoa chegou àquela situação: quanto sono teve, há quanto tempo vive em tensão, quanta atenção anda a dar às sensações do próprio corpo, quanto espaço tem tido para sentir o que quer que esteja a sentir.

É por isso que a mesma reunião provoca um ataque num dia e não noutro, e provoca numa pessoa e não noutra. Não é a reunião. É o limiar a que o alarme está regulado nesse momento, e o limiar desce com acumulação.

Há ainda um conjunto de causas que não são psicológicas e que merecem ser excluídas, sobretudo num primeiro episódio: algumas condições médicas e o consumo de determinadas substâncias, incluindo cafeína em quantidade, podem produzir sintomas indistinguíveis. Uma avaliação médica resolve essa dúvida e vale a pena fazê-la.

Ataque de ansiedade ou ataque de pânico? O que a clínica distingue

Esta é a pergunta mais frequente sobre o tema e a resposta correcta não é a que se encontra na maioria das páginas. Não existe uma tabela clínica a comparar “ataque de ansiedade” com “ataque de pânico”, porque só um dos dois termos está definido. A distinção que os clínicos usam é outra.

Porque é que “ataque de ansiedade” não é um termo clínico

O DSM-5-TR define o ataque de pânico e não define o ataque de ansiedade. Há aqui, no entanto, um segundo ponto que quase nunca é referido e que costuma aliviar bastante quem o ouve: o ataque de pânico também não é, em si mesmo, um diagnóstico. Funciona como um especificador, isto é, uma característica que pode acompanhar várias condições diferentes.

Segundo o National Institute of Mental Health, os ataques de pânico são a característica central da perturbação de pânico, mas podem ocorrer noutras perturbações de ansiedade, em condições relacionadas com trauma e, em muitos casos, sem qualquer diagnóstico psiquiátrico associado.

Traduzindo: ter tido um ataque não significa ter uma perturbação. Significa que o sistema de alarme disparou.

Ataques esperados e inesperados: a distinção que conta

A classificação que o DSM-5-TR faz é entre ataques esperados e inesperados.

Um ataque esperado tem um gatilho identificável: alguém com medo de voar que entra em pânico antes do embarque está a ter um ataque esperado. Um ataque inesperado surge sem causa aparente, incluindo a partir do sono.

Esta distinção importa por duas razões práticas. A primeira é que os ataques inesperados são significativamente mais assustadores, precisamente por não haver nada a que atribuí-los, e é essa ausência de explicação que costuma iniciar o ciclo de preocupação. A segunda é que são os ataques inesperados recorrentes, e não os esperados, que entram nos critérios da perturbação de pânico.

Quando alguém pergunta se teve um ataque de ansiedade ou um ataque de pânico, a pergunta mais útil é esta: houve gatilho, ou veio do nada?

Ataques de pânico nocturnos e em situações específicas

Acordar a meio da noite em pânico é um fenómeno reconhecido e relativamente comum. A revisão de Craske e Tsao publicada na Sleep Medicine Reviews indica que entre 44 e 71% das pessoas com perturbação de pânico relatam pelo menos um episódio nocturno.

O aspecto mais útil desta literatura é o seguinte: o pânico nocturno ocorre em sono não-REM, ou seja, fora da fase em que os sonhos acontecem. Não é um pesadelo. Não há conteúdo mental assustador que o tenha provocado, e é exactamente por isso que a pessoa acorda sem conseguir atribuir o episódio a nada. A sensação de aleatoriedade absoluta vem daí.

A Cleveland Clinic aponta o critério que separa isto dos terrores nocturnos: quem tem um terror nocturno geralmente não tem consciência do episódio e pode não se lembrar dele de manhã. Num ataque de pânico nocturno a pessoa acorda, está desperta e recorda tudo.

Se acorda regularmente com falta de ar, ou se lhe dizem que ressona alto ou pára de respirar durante a noite, vale a pena avaliar apneia do sono antes de assumir que é ansiedade. São coisas diferentes com sintomas parecidos.

Quanto aos ataques a conduzir ou em espaços fechados, o mecanismo costuma ser outro: são situações das quais é difícil sair de imediato, e essa dificuldade é interpretada pelo sistema de alarme como um factor de risco acrescido.

Quando os ataques passam a recorrentes: perturbação de pânico

Fala-se de perturbação de pânico quando existem ataques inesperados recorrentes e, na sequência de pelo menos um deles, um mês ou mais de preocupação persistente com a possibilidade de ter outro, ou de alteração significativa de comportamento por causa disso.

Repare no que a segunda parte deste critério está a dizer. Não é o número de ataques que define a perturbação. É o que passa a acontecer entre os ataques.

É também uma boa notícia, ainda que não pareça. Se o que define o quadro é um padrão de preocupação e de evitamento, então é um padrão que pode ser trabalhado. Os Manuais MSD indicam que a perturbação de pânico é tratada com psicoterapia, incluindo terapia cognitivo-comportamental e terapia de exposição, com medicação, ou com ambas, e que muitas pessoas recuperam mesmo sem tratamento formal.

Convém ainda separar bem as duas coisas. O NIMH é explícito ao afirmar que um ataque de pânico isolado não constitui uma perturbação mental e que nem toda a pessoa que tem um ataque virá a desenvolver perturbação de pânico.

Porque é que os ataques de ansiedade se repetem

Os ataques repetem-se porque o primeiro episódio muda a relação da pessoa com o próprio corpo. É esse o mecanismo, e é o que quase nunca é explicado.

O ciclo funciona assim. Depois de um ataque, instala-se o receio de ter outro, aquilo a que se chama ansiedade antecipatória. Esse receio leva a pessoa a prestar uma atenção muito mais fina às sensações internas, à procura de sinais precoces. Chama-se hipervigilância, e é o motor silencioso de todo o padrão. O problema é que o corpo produz sensações o tempo todo: o coração acelera ao subir escadas, a respiração muda com o esforço, a cabeça fica leve quando nos levantamos depressa. Quem anda a monitorizar vai encontrar sempre alguma coisa.

Encontrada a sensação, ela é interpretada como o início de um novo ataque. Essa interpretação gera alarme. E o alarme produz, de facto, as sensações do início de um ataque. A previsão cumpre-se porque foi feita.

À volta disto instala-se o evitamento: deixa-se de ir a certos sítios, de conduzir em certas vias, de fazer exercício, de ficar sozinho. Cada evitamento traz alívio imediato, e é por isso que se mantém. Mas cada evitamento confirma também que aquele contexto era mesmo perigoso, e o alarme fica mais sensível em vez de menos. É o que se designa por sensibilização.

Quando o evitamento se alarga a ponto de a pessoa recear situações de onde seja difícil sair ou obter ajuda, fala-se de agorafobia. É a extensão do mesmo padrão, não um problema diferente.

O que mantém um problema de pânico não é o ataque. É o que a pessoa passa a fazer para não voltar a tê-lo.

Vale a pena notar que isto não é interpretação minha. O critério de diagnóstico da perturbação de pânico refere expressamente a preocupação persistente e a alteração desadaptativa de comportamento. A própria definição clínica reconhece o ciclo de manutenção como parte central do quadro.

É também por aqui que se sai. O trabalho em acompanhamento psicológico para ansiedade não incide sobre o ataque em si, que é breve e se resolve sozinho, mas sobre o que acontece nos dias entre ataques: a monitorização, a interpretação das sensações e os evitamentos que parecem soluções e são combustível. Interrompido esse ciclo, os episódios tendem a espaçar-se e a perder intensidade, porque deixam de ser alimentados.

Interromper o ciclo é trabalho clínico

Se reconhece este padrão em si, uma consulta de avaliação inicial serve para perceber em que ponto está e o que faria sentido a seguir, sem compromisso de continuidade. Presencial em Matosinhos ou online.

Marcar consulta de avaliação inicial

O que fazer durante um ataque de ansiedade

A estratégia mais eficaz durante um ataque é contra-intuitiva: deixar de tentar fazê-lo parar. Explico porquê, e depois o que fazer em concreto.

Lutar contra um ataque envolve tentar controlar a respiração à força, tentar não pensar, tentar acalmar-se por vontade. Todos estes esforços exigem que se preste ainda mais atenção ao que está a acontecer por dentro, e essa atenção é o que amplifica a experiência. É por isso que quanto mais se tenta parar, pior parece ficar.

Há três coisas que ajudam, e cada uma por uma razão específica.

Reconhecer o que é, em voz alta ou por dentro. Dizer a si próprio que é um ataque, que atinge o pico em minutos e que acaba sozinho. O objectivo não é convencer-se de nada: é substituir a interpretação catastrófica (“estou a ter um enfarte”, “vou enlouquecer”) por uma interpretação correcta. Como vimos, é a interpretação que alimenta a escalada.

Ancorar a atenção no exterior. Nomear objectos que vê, sons que ouve, texturas que toca. Isto funciona não por ter qualquer efeito calmante próprio, mas porque a atenção tem capacidade limitada: dirigida para fora, fica menos disponível para monitorizar o que se passa por dentro. É um mecanismo de competição atencional, não um truque de relaxamento.

Alongar a expiração. Não “respirar fundo”, que muitas vezes significa inspirar mais e agrava a sensação. Expirar devagar, mais devagar do que se inspira. O efeito é modesto e não interrompe o ataque, mas dá algo concreto para fazer que não passa por vigiar sintomas.

Nenhuma destas estratégias elimina o ataque, e é importante dizê-lo. O que fazem é impedir que a reacção ao ataque o prolongue.

Como ajudar alguém que está a ter um ataque

Se está com alguém em ataque, o mais útil que pode fazer é manter-se presente e não dramatizar. Frases curtas, tom calmo, e não exigir explicações no momento: a capacidade de processar linguagem complexa está reduzida durante o episódio.

Evite duas coisas em particular. A primeira é entrar em alarme, porque o seu alarme confirma à outra pessoa que existe perigo real. A segunda é insistir em levá-la dali imediatamente, a não ser que ela peça: ajudar a sair depressa de todos os contextos difíceis é, no médio prazo, colaborar no evitamento que mantém o problema.

Depois de passar, resista à tentação de tratar o assunto como algo a esquecer rapidamente. O silêncio em volta do episódio costuma aumentar a vergonha.

Quando procurar ajuda

Não é preciso ter muitos ataques para procurar apoio. Os critérios práticos são três: se os episódios se repetem, se anda a organizar o seu dia em função do medo de ter outro, ou se deixou de fazer coisas que fazia antes.

O terceiro critério é o mais importante e o mais fácil de não notar, porque o evitamento instala-se devagar. Deixa-se de conduzir na auto-estrada, depois de ir a centros comerciais cheios, depois de ficar sozinho em casa. Cada passo parece razoável isoladamente. Ao fim de meses, a vida encolheu.

Num primeiro episódio, ou perante sintomas que fujam ao padrão habitual, faça uma avaliação médica para excluir causas físicas. Dor no peito persistente exige sempre avaliação e não deve ser atribuída a ansiedade por defeito. Feita essa exclusão, o trabalho é psicológico. Se tem dúvidas sobre a quem recorrer, abordo as diferenças entre psicólogo ou psiquiatra noutro artigo.

Conclusão

Um ataque de ansiedade é um episódio com estrutura: sobe depressa, atinge o pico em minutos, desce sozinho e deixa um rescaldo. Não é perigoso, não é sinal de que se está a perder o juízo, e ter tido um não significa ter uma perturbação.

O que merece atenção não é o episódio. É o padrão que se instala à volta dele: a vigilância às sensações do corpo, a interpretação de cada sinal como início de um novo ataque, e os evitamentos que dão alívio imediato e agravam o problema a prazo.

Três passos concretos, por ordem. Se foi o primeiro episódio, faça uma avaliação médica para excluir causas físicas. Se já se repetiram, repare no que deixou de fazer desde o primeiro. Se essa lista existe e está a crescer, é altura de trabalhar o ciclo e não apenas os sintomas.

Se reconhece este padrão em si, pode marcar uma consulta de avaliação inicial. É uma sessão para perceber o que está a acontecer e clarificar o que faria sentido a seguir, sem compromisso de continuidade. Atendo presencialmente em Matosinhos e também online.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre uma crise de ansiedade e um ataque de pânico?

A diferença principal não é clínica, é de linguagem. “Crise de ansiedade” é uma expressão corrente sem definição nos manuais de diagnóstico; “ataque de pânico” é um termo definido. Quando alguém descreve uma crise de ansiedade está habitualmente a descrever um ataque de pânico ou uma escalada mais gradual de ansiedade ligada a uma preocupação concreta. A distinção que os clínicos usam é outra: entre ataques esperados, com gatilho identificável, e inesperados, sem causa aparente.

Quanto tempo dura uma crise de ansiedade?

Atinge o pico em minutos e a maior parte resolve-se pouco depois. As fontes divergem quanto ao tempo total: o NIMH refere episódios que vão de alguns minutos a cerca de uma hora, a literatura clínica aponta frequentemente para cinco a trinta minutos. A fase de medo intenso é curta; o que se prolonga é a descida e o cansaço posterior, que pode durar o resto do dia.

Quais são os sintomas psicológicos de uma crise de ansiedade?

Os mais frequentes são a sensação de que algo muito grave está prestes a acontecer, o medo de perder o controlo, o medo de morrer e a dificuldade em pensar com clareza. Muitas pessoas descrevem também uma sensação de irrealidade, ou de estarem afastadas de si próprias, a que se chama desrealização e despersonalização. É esta camada psicológica, e não a corporal, que costuma deixar a pessoa mais assustada.

Como acalmar um ataque de ansiedade (ou de pânico)?

A estratégia que mais ajuda é deixar de tentar fazer o ataque parar à força — esse esforço costuma alimentar a escalada. Três coisas ajudam: nomear o que está a acontecer (é um ataque, atinge o pico em minutos e acaba sozinho), ancorar a atenção no que está à volta — objectos, sons, texturas — em vez de monitorizar o corpo, e alongar a expiração, mais devagar do que a inspiração. Nenhuma destas estratégias elimina o ataque; o que fazem é impedir que a reacção ao ataque o prolongue.

Qual é o gatilho de um ataque de ansiedade?

Pode ser praticamente qualquer coisa, ou nada identificável. Uma reunião, uma discussão, um espaço fechado, conduzir, ou o próprio sono. Mais importante do que o gatilho é distinguir gatilho de causa: o gatilho é o que estava a acontecer, a causa é a razão pela qual o sistema de alarme interpretou aquilo como perigo. Essa razão está no estado acumulado da pessoa, não na situação.

Como parar de ter ataques de ansiedade (ou de pânico)?

Não é possível impedir um ataque isolado por vontade própria, mas é possível interromper o padrão que os mantém a repetir-se. Depois de um primeiro episódio instala-se frequentemente hipervigilância: uma atenção mais fina às sensações do corpo, à procura de sinais de um novo ataque. Essa monitorização encontra sempre alguma sensação, interpreta-a como ameaça, e o alarme dispara — a previsão cumpre-se porque foi feita. O evitamento de situações associadas aos ataques reforça o mesmo ciclo. O trabalho que reduz a frequência dos episódios não incide sobre o ataque em si, que é breve e passageiro, mas sobre esta monitorização e este evitamento.

O que caracteriza um ataque de pânico?

Caracteriza-se por um surto abrupto de medo ou desconforto intenso que atinge o pico em minutos, acompanhado de um conjunto de sintomas físicos e psicológicos. Segundo os critérios do DSM-5-TR são necessários quatro ou mais desses sintomas, e o surto tanto pode partir de um estado calmo como de um estado já ansioso. O ataque de pânico não é, por si só, um diagnóstico: funciona como característica que pode acompanhar várias condições diferentes, ou nenhuma.

Quando se deve procurar atendimento médico urgente?

Perante dor no peito persistente, falta de ar acentuada, ou qualquer sintoma que fuja ao padrão dos episódios anteriores. A mesma recomendação aplica-se a um primeiro episódio, porque só uma avaliação médica pode excluir causas físicas com sintomas semelhantes. Nunca conclua por conta própria que dor no peito é ansiedade.

Um ataque de ansiedade pode causar algum dano físico?

Não. Tanto os Manuais MSD como a Mayo Clinic são claros neste ponto: os ataques são muito desconfortáveis e assustadores, mas não são perigosos. O NIMH acrescenta que não colocam a vida em risco e que os sintomas físicos se resolvem com o tempo. Isto pressupõe que causas físicas foram excluídas, o que é especialmente importante num primeiro episódio.

Fontes

Laura Torquato, Psicóloga Clínica. Inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses, cédula n.º 28403. Mais de 20 anos de prática clínica com adultos e casais.

Este artigo tem finalidade informativa e não substitui avaliação clínica individual.

Scroll to Top